O que passa pelo seu ouvido? Buzina, conversas, Belle and Sebastian, "me dá um trocado", sussurros, ligação a cobrar, segredos de liquidificador, plástico bolha, grilos, gritos, Wilco, nada, ou tudo isto ao mesmo tempo?
Aqui no Plug de Ouvido passa tudo o que interessa: boa música, papos, viagens, tecnologia e tudo aquilo que é essencial aos olhos e aos bons ouvidos.
Se você pudesse desenhar a sua canção favorita em traços e cores? Tá bom, uma canção é muita coisa. Um trecho, um refrão ou um acorde. Aquilo que te emociona. Como seria visualmente aquela frase sonora que te dá arrepios ou aqueles suspiros gostosos de se dar? A Daniela Hasse fez disso uma profissão; na verdade, isso a transformou em uma profissional. Mas as coisas não são tão simples quanto pode parecer pela história que essas linhas vão contar. Esta é a história de paixão pela música que a fez descobrir o que queria ser – e se tornou.
Os Pixies, Wilco, Blur, Weezer. Talvez poucos destes entendam de artes gráficas, mas Daniela encontrou também neles os traços para transformar em desenhos suas paixões. Uma paixão que impulsionou a outra: a música e as artes plásticas. “Eu sempre tive isso de desenhar música. Pegava um trecho que eu gostava da música, desenhava e colocava no meu Fotolog. Eu era bem novinha”.
Daniela Hasse, ou, simplesmente, Dani Hasse, tem despontado como uma das boas surpresas nacionais pra quem curte pôsteres. Ela já assinou a arte de cartazes de shows de nomes como Rainbow Arábia, Cidadão Instigado, Lulina, entre outros. Para quem acha que é moleza tocar a vida fazendo pôsteres de banda, Dani já avisa: “eu faço pôsteres, mas não é só com isso que tiro a minha grana pra viver. Faço outros jobs de design e ilustrações. As bandas que eu curto não têm muita grana, é o underground, então eu pego outros jobs para continuar podendo fazer esses trabalhos que eu curto muito”.
pôster feito para a festa ‘don’t touch my moleskine’
Entre um cigarro e outro, sentada no chão de sua casa, vigiada de perto pelos seus gatos – Six e Ramona – com uma parede que mais parece um backdrop artístico, com vários trabalhos de design pendurados, ela se sente otimista com o futuro do mercado para seu tipo de arte.
“A internet tem, na verdade, aumentado as oportunidades para o trabalho. Hoje chegam pedidos de ilustrações de background para MySpace, Twitter, ilustrações para blogs, encartes virtuais de CD, além dos tradicionais jobs”.
do começo
“]
Daniela Hasse [foto: Marcela Faé
Sua escola foi a moda. Sem o domínio da parafernália tecnológica, se arriscou em um teste para fazer estampas na Colcci e passou. “Hoje tem muita gente que domina muito a parte técnica, mas não tem o domínio do básico, do desenho”. Após sair da Colcci, foi parar na Hering, em Blumenau, só que em seguida, foi transferida para São Paulo, onde continua, e pretende ficar “até ficar bem velhinha”.
Apesar de ter saído do vaidoso ramo de moda, continua a colaborar com estampas para camisetarias online, onde os modernos montam parte do seu guarda-roupa.”Já pensei, sim, em ter uma camisetaria. Eu comecei no ramo e conheço bem os processos. Mas hoje estou apertada de tempo para enviar as estampas para a Elephant por causa dos jobs de design que faço”.
voltando a falar de música
A indústria fonográfica mal consegue pensar em soluções para a lama que está se afundando. Mas artistas como a Daniela Hasse já faz hoje, idéias que alguns ainda acham que falta muito para acontecer. “Alguns trabalhos como encarte virtuais para álbuns já surgem, como o que eu fiz para o We Music. São coisas que tão surgindo e parece que haverá mais espaço”, comenta Daniela.
O que vai acontecer, a gente não sabe, né? Mais sempre há espaço para a arte gráfica junto à música, elas andam lado-a-lado. Algumas capas de discos ficaram tão conhecidas como os álbuns. Lembra da capa do The Velvet Underground and Nico? Nervemind, do Nirvana? Sgt. Peper´s, dos Beatles? The Dark Side of the Moon, Pink Floyd. É o visual dando traços e curvas ao sonoro.
Se as artes plásticas ligada com a música vão ficar apenas no seu avatar, ou no background do Twitter ou do MySpace, no email que chegue pra você ou na tela do seu ipod… Ninguém sabe. Mas é certo que vai precisar de pessoas com sensibilidade pra colocar isso em cores, para que todos possam enxergar com os olhos algumas notas da canção.
Um dos lançamentos mais bem comentado do ano é do pessoal do Mombojó. Depois de um longo período, os pernambucanos entregam o Amigo do Tempo para os fãs. Um álbum tão bem cuidado que parece que o tempo foi amigo nessa produção.
O blog Plug de Ouvido entrevistou o guitarrista do Mombojó, Marcelo Machado, que conta mais detalhes da produção do novo CD.
E na próxima segunda tem uma Tape feita pelo camarada. Espere que vem mais coisa boa na segunda.
Abaixo a entrevista
Plug de Ouvido: Por vocês terem tocado algumas musicas antes, a impressão que dá é que o álbum foi feito em diferentes momentos. Foi por ae?
Marcelo Machado: Sim, começamos a gravar em Janeiro de 2009.
PdO: O Amigo do Tempo foi pensado num significado único que une as músicas ou cada canção é um recorte indepedente?
MM: Nós compomos cada música de forma bem singular, o título Amigo do Tempo foi escolhido por ser o título de uma das músicas do disco.
PdO: Qual foi o motivo do longo tempo entre as gravações de Homem Espuma e Amigo do Tempo?
MM: Porque tivemos alguns percalços nesse período, primeiro a morte de Rafa em 2007 e a saída de Marcelo Campello em 2008. Só depois da saída de Marcelo que começamos a ter a vontade de gravar um novo disco. O Amigo do Tempo foi feito sem nenhum incentivo financeiro vindo de editais, para gravar o disco tivemos que bancar todo o processo. Isso também atrasou o lançamento.
PdO: A Internet sempre esteve muito presente nas divulgações da banda. Como tem sido o feed back deste lançamento na web? É uma via que vocês ficam mais a vontade de se comunicar?
MM: O que eu mais estou gostando é que muita gente está escutando o nosso novo disco devido ao fácil acesso que nós disponibilizamos aos ouvintes. Tenho escutado muitos comentários a respeito do disco pelo twitter e acho isso bem importante no processo de lançamento de um disco. Nosso site é o nosso maior meio de comunicação com nosso público, é lá que eles podem acompanhar o que a gente tá fazendo pelo nosso blog, baixar nossos discos, comprar algum produto de nossa loja e também manter contato com a banda.
PdO: Teve participação de músicos convidados nesse álbum, qual é o significado especial de contar com a colaboração de um músico em seu álbum?
MM: Nesse disco nós procuramos as participações de acordo com as necessidades das músicas. Cada convidado teve um papel muito importante no arranjo do disco.
PdO: Influencia na hora da criação da música a forma com ela vai ser recebida pelo público quando ela for executada ao vivo. Por exempo, Antimonotomia é uma música que deve incendiar os shows. Há essa preocupação “do aovivo” quando se trabalhou as músicas do amigo do tempo?
MM: Não. Nós sempre compomos as músicas e o efeito que elas têm nos shows a gente vai sentindo depois do lançamento.
PdO: Mesmo tendo tocado algumas músicas antes – como Justamente – hoje quando toca essas músicas em shows tem outro sentindo?
MM: Com certeza, o arranjo é diferente do que a gente tocava antes e também sabemos que as pessoas ouvem o disco em casa, isso deixa o ouvinte mais curioso para conferir a versão ao vivo das músicas.
PdO: A produção e a gravação foram feitas aos poucos, em um longo espaço de tempo. Você acha que é o ideal, que vai amadurecendo o álbum?
MM: Não necessariamente. No nosso caso eu acho que foi importante o tempo para a maturação do disco. Mas existem discos que foram gravados em bem menos tempo e são geniais.
PdO: Vocês acompanham o que rola na internet, novas músicas, virais, etc. Essa linguagem influencia de alguma forma o trabalho da banda?
MM: Eu acompanho. Acho que influencia um pouco na forma de divulgação de nossas notícias. O blog da gente é um bom exemplo disso.
PdO: Para terminar, se você pudesse ir a um show de qualquer artista em qualquer época, qual você iria?
Depois de sumir e de fechar a boca para entrevistas – não que ele fosse muito falante - mas Marcelo Camelo se despe da figura de ríspida e monossilábica e aparece nas páginas negras da Revista Trip de maio.
Fã de Bon Jovi e da namorada, Mallu Magalhães, Camelo luta para encontrar sua brutalidade
| Texto por Kátia Lessa Fotos Nelson Mello
Nos últimos 13 anos, ele traduz o amor em música para uma geração sedenta por bons compositores. Integrante da banda Los Hermanos, idolatrado por uma legião de fãs, prestes a lançar o segundo disco solo, ele é o protagonista do romance mais comentado da música brasileira, ao lado da jovem Mallu Magalhães. Nas próximas páginas, ele abre o coração, fala das suas recentes mutações e revela um Camelo que você nunca viu
Imagem: Nelson Mello
Você já deveria imaginar. O camelo aí da foto é arisco, antipático, avesso a muito papo. De uns tempos pra cá, vive longe dos companheiros de grupo. Tem uma barba respeitável, adora cenoura, batata-doce e fica incomodado quando atrapalham suas refeições. Guga, o camelo. O outro Camelo, Marcelo, fala pelos cotovelos, de forma gentil e sotaque carregado. Aparou a barba, tem 1,90 m de altura, calça 44, adora suco de melão com fruta-do-conde (sem açúcar), do BB Lanches no Rio, e PF de R$ 7 da vizinhança às quatro da manhã. Tem miopia e astigmatismo, e mora com Soninho e Albano, seus gatos vira-latas. Rói as unhas. Fica perturbado com barulhos, se sente perseguido por reformas, anúncios de voz em aeroporto e pessoas que falam alto em aviões. Por isso uma de suas melhores compras foi um fone de isolamento acústico usado para treinamento de tiro.
Durante dois dias, primeiro em seu apartamento em São Paulo e depois durante uma tarde no zoológico de Brasília, Trip esteve ao lado do compositor gravado por gente como Maria Rita e Ivete Sangalo, o criador de um dos maiores hits dos últimos anos, a música “Anna Julia”, e que virou alvo da legião de fãs do Los Hermanos, talvez os mais fervorosos exemplares deles no país desde o Legião Urbana de Renato Russo. Mais que fãs, eles são seguidores fiéis, que, de quatro anos pra cá, têm de se contentar com os velhos discos, vídeos no YouTube ou reencontros esporádicos como o último, que aconteceu em 2009 por ocasião de um convite para abrir o show da banda Radiohead. Ou mais dois deles que, revela em primeira mão, acontecerão no segundo semestre deste ano.
Afastado por tempo indeterminado da banda com a qual fez fama, Marcelo Camelo se prepara para lançar seu segundo disco solo, ainda sem nome até o fechamento destas Páginas Negras. Páginas, aliás, para as quais ele arriscou a vida ao lado do colega de sobrenome, o Guga, de quem levou uma mordiscada no braço durante a sessão de fotos da capa. Sem grandes danos. Não foi desta vez que acabamos com a maior esperança da música brasileira atual.
Cores e amores
Marcelo Camelo mudou de habitat. Por amor a uma paulistana, largou o Rio de Janeiro, onde nasceu em 4 de fevereiro de 1978, e está de cidade nova. O apartamento na zona oeste de São Paulo não lembra seu último refúgio, um apê no Alto Leblon, onde se isolou para compor o disco Sou. É mais barulhento. A rua tampouco lembra a vizinhança onde cresceu, no bairro de Jacarepaguá.
Filho de um dono de botequim e de uma artista plástica naïf, ele cresceu em um lar amoroso. “Lá em casa é todo mundo bom de abraço.” Talvez venha daí a pitada de romantismo que contaminou o repertório do então adolescente cabeludo, que adorava as bandas Weezer, Pearl Jam e Bon Jovi e os grupos de rock do underground carioca nos anos 90, para então criar um estilo com traços menos raivosos e texturas suaves de bambas do samba.
As paredes da casa da cidade nova são coloridas por desenhos, inúmeros. Quem chega ganha tinta e giz pra deixar tudo mais pulsante, como o álbum que está no forno. Nem a repórter escapou. O lugar tem ainda luzinhas coloridas, como as de árvore de Natal, e enfeites simples, como em um cenário de Michel Gondry.
Imagem: Arquivo pessoal
O banho do pequeno Camelo
O rabisco mais frequente é o rosto da namorada, Mallu Magalhães. Ela está na sala, atrás da porta da cozinha, sobre o móvel. Está também nas próprias marcas que deixou na cozinha, no batente das portas, no quarto. Está em porta-retratos (Marcelo é bom fotógrafo) e no fundo de tela do iPhone. No início do namoro, Mallu tinha 16 anos, metade da idade dele. Desse romance cheio de diferenças e completudes os fãs lucraram duetos e declarações de amor musicais como a da música “Janta”, composta por ele para o álbum Sou. No momento, é ele quem participa da turnê do segundo álbum da moça.
De uma hora para outra, ele transitou de jovem compositor mais disputado da MPB a alvo de concorridas imagens para revistas de celebridade, atraídas pelo chamariz fácil da diferença de idade. Sobre o assunto, ele se diz magoado: “Quando você se apaixona, se apaixona. O radical da palavra paixão é o mesmo de passividade. Quando acontece, tu fica meio passivo. Nosso encontro foi algo muito especial”.
No banheiro, um retrato de sua musicista preferida, Guiomar Novaes, ao lado do espelho, onde agora ele apara a barba. “Os cientistas todos têm barba. É uma parada que avisa que você não está nesta vida de brincadeira.”O olhar de Marcelo é quase como o de um cientista. O tipo que, ao observar o céu, aprende mais sobre o telescópio do que sobre a área observada. Duvida de tudo, é guiado pela teoria da Maybe Logic, de Robert Anton Wilson, e pelo amor que tem pra dar.
Além de assuntos cabeçudos como astrofísica, números primos ou os Crop Circles, Marcelo é viciado em Big Brother Brasil e adora Claudinho & Buchecha. Tentando distrair-se de si mesmo, ele diminuiu a barba e está diferente. Então, cuidado, se você acha que sabe tudo sobre o cara ali da foto, duvide, isso pode não ser um Camelo.
“O Los Hermanos só devería voltar para um disco novo, não ficar nessa de coisas velhas”
Está gostando de São Paulo?
Estou. Me surpreendi com a calma do paulistano, a “boa-pracice”. É como se o Rio tivesse um subtexto da malandragem. Quando chego lá agora, tenho que chavear a cabeça pra um modo meio marrento, senão você é maltratado o tempo inteiro. No táxi, você tem que chegar pro cara e falar: “Vou pra Copa, mermão” [risos]. Tem que ter uma afirmação. Aqui a gente acaba um ensaio, termina a conversa e os meninos da banda ficam lá sentados, na maior calma [risos]. Acho superestranho. Eu sou de Jacarepaguá, que tá no coração do Rio. É a malandragem.
De que você sente mais falta do Rio?
Do Rio [risos]. Sinto falta da praia, do sol, da umidade, dos amigos, e do BB Lanches. Em Copacabana dá pra ir ao boteco às três e meia da manhã. “Fala aí, João, beleza? Como é que tá o PF?” “Pô, hoje tá meio ruim, cara. Mas o feijão tá legal.” Copacabana é um bairro da tolerância. Um dia estava botando unha de porcelana no salão, todo barbudão, aí entra uma menina assim com um garotão francês…
Espera aí! Você disse que estava colocando unha de porcelana?
É que eu roo muito a unha e precisava deixar ela crescer. É melhor que tomar Opinol. Já tentei pimenta, mas dá uma viciadinha.
Imagem: Arquivo pessoal
Brinca com os irmãos
Agora você está sem unhas postiças.
Na turnê do Sou eu não podia roer a unha porque tocava muito violão. Quando acabou, eu roí de propósito pra evitar o violão porque queria um disco de guitarra, que é esse novo.
Ele é mais pesado?
A ideia é que seja mais pulsante.
Você parece muito feliz, radiante.
Eu sempre fui.
Na época do Sou, seu primeiro CD pós-Los Hermanos, você também estava?
É, na época do Sou eu tava um pouco mais introspectivo, isolado em um apartamento silencioso no Alto Leblon para compor.
Com qual frequência você fala com o pessoal do Los Hermanos?
De vez em quando. Vamos fazer dois shows no segundo semestre, dois shows fechados. Um em Recife e um em Salvador. E eu tô adorando. Pô, sinto mó saudade deles, outro dia fiquei vendo uns vídeos nossos em casa.
Sente falta dos amigos ou da banda?
Dos amigos, das músicas que a gente fez, de fazer música junto, do nosso repertório, da nossa relação pessoal, da nossa viagem, da equipe que a gente formou. Eu tenho saudade de quem eu sou quando estou com eles.
Quão perto vocês estão de uma volta?
Sinto que só deveríamos voltar pra fazer um disco novo, com repertório novo, pra não ficar nessa coisa de só tocar coisas velhas. Mas por enquanto cada um está com seu trabalho solo, criando coisas novas. O Rodrigo tem uma frase interessante que é: “Tempo a gente tem o quanto a gente dá”. Estamos dando um tempo para outras coisas.
Vocês se falam sobre os trabalhos individuais?
Eu toquei com o Barba no Canastra, mas ainda não vi o Bruno na Adriana Calcanhoto. Mas acompanho o blog dele. Com o ruivo [Rodrigo Amarante] falo mais, sou o maior fanzão do Little Joy. Fui ao show no Circo Voador e tudo.
O que você sentiu quando o viu tocar fora do Brasil, outra língua, um público virgem?
Todo sentimento é ambíguo. Eu poderia ter inveja, mas troco essa parada pela admiração. Vontade de tocar com gringo eu não tenho, porque tenho uma coisa com o português da qual não consigo me livrar. Mas o público virgem seria legal pra caramba. O Rodrigo foi lá, se misturou e se estabeleceu como parte da cultura americana que reverbera na cultura mundial. Para isso é preciso talento, coragem, coração grande que nem o dele.
Como você entende o fanatismo dos fãs do Los Hermanos?
Acho que a banda é boa [risos]. Eu acho que a banda é realmente muito boa.
Mas você acha que tem alguma relação com o cenário musical brasileiro, com a falta de ídolos?
Não, fizemos parte de um movimento de transformação da música. Cresci nos anos 90 ouvindo Raimundos. Fazia fanzine, acompanhava essa cena das bandas de fitas demo, principalmente as bandas do Rio, Poindexter, Cabeçudos. Aí veio o Acabou La Tequila, que foi uma transformação na minha cabeça. Ouvi uma música do Kassin, “É o fim”, “é o fim, tudo que havia se acabou…” [cantarola]. Uma música romântica. Fui ao show e vi que eles tocavam carimbó, do Pinduca. O Kassin tocando guitarra era absurdo. Nesse show tive essa sensação de ampliar.
Imagem: Arquivo pessoal
Estuda violão na sala de casa
Isso aconteceu com que idade?
Até uns 19 anos, eu gostava só de rock. Aí passei a acompanhar a cena alternativa e a ouvir samba. E isso tomou conta da minha vida dos 20 até hoje. Quase só ouço isso aí.
Isso aí o quê? Coisas antigas?
Eu não tenho essa relação com o tempo. Ouço de Dilermando Reis a Guiomar Novaes, pra mim ela é de hoje, de amanhã, de ontem. Eu gosto de música eterna. O que é muito contemporâneo fica atrasado rápido. Meu disco preferido é o último gravado em vida pela Guiomar, que é uma pianista brasileira de música clássica. Ela gravou só com repertório brasileiro, talvez por isso seja o meu preferido, com melodias brasileiras, sinuosas.
Antes você disse que acompanhava tudo, que fazia fanzine. Como você consome música hoje?
Eu não vou mais a shows como antes. Eu acompanho pela internet, ouço quase tudo que tem por aí. Entro em fórum de pessoas que comentam música americana contemporânea, vou em blog como o dos irmãos Mesquita, o blog do Guaciara.
Você é internauta?
Bastante. Vou lá no site do TED do YouTube e fico vendo palestras, documentários.
De música?
A música é 1% do meu campo de interesse.
O que ocupa uma parte grande do seu campo de interesse?
Astrofísica, por exemplo.
Eu estudei um pouco de astrofísica…
Não acredito, cara. Tá acompanhando o Grande Colisor de Hádrons? Espera aí, para a entrevista, vamos falar um pouco sobre isso, porque esse assunto é mais importante [interrompe, comenta sobre cientistas, pesquisas, mostra referências e imagens no iPhone].
Você se considera um nerd?
Não, mas acho que me interesso por assuntos que pega mal me interessar. Eu começo a falar sobre os sumérios ou o Grande Colisor de Hádrons com meus amigos e eles falam: “Não me vem com porra de sumérios a essa hora”.
No Brasil o mercado de trabalho concentra as principais oportunidades nos grandes centros, em especial, em São Paulo. No caso da música não é diferente.
Gaúchos, mineiros, baianos, pernambucanos e todo tipo de gente abandona o lar-doce-lar e se joga nos palcos de São Paulo e do Rio de Janeiro para fazer acontecer o que mais desejam: tocar; e, por que não, serem melhores remunerados pelo que fazem.
O blog Plug de Ouvido entrevistou vários músicos, e, dessa vez, o Marcelo Machado, da trupe do Mombojó, fala sobre o mercado brasileiro do showbusiness e a necessidade de se alocar no sudeste brasileiro para estar perto das grandes produções.
Plug de Ouvido: Como é a aceitação do público Pernambucano com os artistas regionais (no próprio estado)?
Mombojó: Os shows, que pelo menos eu frequento, são muito apreciados pelo público pernambucano, tanto do Mombojó quanto de outros artistas.
PdO: Como é aceitação dos shows em São Paulo?
M: Também é muito boa… uma das únicas diferenças que eu noto em relação aos dois públicos é que o público de São Paulo está mais acostumado a pagar para ir aos shows.
PdO: Quais elementos, no seu ponto de vista, atraem o público do sudeste para essa geração de músicos Pernambucanos?
M: Talvez a autenticidade dos artistas de Pernambuco, se você notar quase todas as bandas são muito diferentes entre si em Pernambuco.
PdO: O Brasil é um país imenso e com uma grande diversidade cultural, você acredita que há lugar para essa diversidade ou ela se reserva a pequenos espaços e predomina poucas manifestações artísticas?
M: Eu acho que há um espaço para a diversidade, mas ainda acho muito pequeno em relação aos artistas que predominam no mainstream da música brasileira. Eu acho que com as novas formas de divulgação, os ouvintes vão ter mais acesso aos artistas de forma geral.
PdO: Há um intercâmbio entre os músicos de Pernambuco? Como?
M: Eu acho que sim. Quase todos os artistas já participaram de projetos de outros artistas em Pernambuco, e se não tocaram juntos, pelo menos se conhecem de alguma forma.
PdO: Você acredita que é preciso morar em cidades como SP e RJ para poder ter as grandes oportunidades no meio artístico?
M: Infelizmente sim.
PdO: O que mais te agrada na cidade de São Paulo?
M: Eu gosto muito da dinâmica de trabalho que se têm em São Paulo. É uma cidade que se você procurar trabalho você tem uma chance muito grande de achar.
PdO: Qual foi a importância da Nação Zumbi para a consolidação de uma cena musical em Pernambuco?
M: Eu acho que o manguebeat é um movimento muito bom porque ele preza pela união dos artistas e ao mesmo tempo pela diversidade, então para artistas novos como o Mombojó, é muito gratificante fazer parte disso tudo. Muitas vezes nós já chegamos nos lugares “ganhando de 1 a zero” porque o nome de Pernambuco é muito valorizado por artistas de Recife e do Manguebeat como a Nação Zumbi e o Mundo Livre
música `Casa Caiada´, do próximo álbum da banda
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Em entrevista para o blog Plug de Ouvido, John Ulhoa, guitarrista do Pato Fu, fala sobre a influência da internet na música: da produção à distribuição.
Os meios digitais têm mudado o relacionamento dos ouvintes com a música, seja por meio do download, streaming, aplicativos mobiles; tudo está de cabeça para baixo e está díficil de apontar, com certeza, como será o consumo de música na próxima década.
Para debater sobre essas transformações, nada melhor do que quem vive dos produtos da Indústria Cultural.
Pato Fu foi uma das primeiras bandas brasileiras a ter site, antes mesmo do lançamento do In Rainbows, a banda mineira fez o lançamento do álbum Toda Cura para Todo Mal primeiramente em seu site.
Acompanhe a entrevista!
Plug de Ouvido: Há um pouco mais de uma década as pessoas faziam as suas fitinhas de músicas [que passavam nas rádios] e compartilhava com os amigos. A tecnologia evoluiu e já não são mais fitinhas, mas pen drives ou a própria rede. Você acha que há diferença nessas formas de compartilhamento de música?
John: Acho que a maior diferença está no compartilhamento anônimo que é feito hoje em dia. Não é mais uma coisa entre amigos, que requeria algum trabalho artesanal de fazer aquela fitinha, e passá-la às mãos de alguém que você queria que conhecesse aquele som. Isso ainda existe mesmo com o MP3, mas na maior parte das vezes é uma coisa completamente diferente.
PdO: Qual é o ponto positivo do acesso à música pela internet?
J: É obviamente o acesso a tanta informação que estaria perdida sem isso. Tenho escutado coisas que achei que nunca mais ouviria. Pra ser sincero, o que eu mesmo mais gosto é de achar coisas antigas, muito mais que ouvir novidades. Novidades, eu sempre ouvi no ritmo que consigo absorver, e continuo fazendo assim. Mas as raridades que tenho encontrado… essas sim valem a pena.
PdO: Qual é o ponto negativo?
J: Acho que o aspecto negativo é que temos cada vez mais artistas tendo 15 minutos de fama e cada vez menos tendo carreiras sustentáveis. Estou vendo todo mundo muito animadinho com essa coisa toda, mas quem consegue viver decentemente com música ainda acaba tendo que passar pelo mainstream de radio e tevê – e o acesso a esse está cada vez mais reduzido. Ter uma banda independente está mais divertido, todo mundo nas comunidades, no Twitter, etc, mas está muito pior pra trabalhar “de verdade”.
É que o esquema das gravadoras – com todos seus defeitos – ainda não foi substituído por nada que se compare à capacidade que elas tinham de lançar e sustentar carreiras. Isso deve acontecer eventualmente, mas ainda não chegamos lá. Artistas muito bons que conheço que obviamente interessariam a gravadoras há alguns anos gravam sozinhos discos muito bem produzidos, com tudo “em cima”, mas tem que se contentar em ficar contando views no You Tube ou My Space. Divertido, mas temos que superar esses estágios.
PdO: Você acredita que com download isolados de faixas está havendo um movimento de volta ao antigo formado de compacto, substituindo o ´LP´ – os álbuns com mais de 12 músicas?
J: Pode ser um jeito de divulgar mais um single, mas não é exatamente como um compacto. Acaba sendo uma extensão do single da rádio. O que há mesmo é um abandono da posse de um disco, seja LP, compacto ou CD. O engraçado é que todo músico que conheço gosta da idéia de lançar “cds com 12 faixas”. Músicas gravadas na mesma época, com um certo conceito amarrado: com capa, foto, etc… Isso vai sendo substituído por um arquivo dentro dum site, mas porque tem que ser, não porque os artistas querem.
PdO: A indústria cultural, que faz mediação do artista com o público, tende a acabar? Já que há viabilidade de ter acesso ao público de forma mais direta e há espaços de divulgação mais baratos e simples?
J: Nada disso acaba com a indústria cultural. As pessoas continuam a querer se aglomerar em estádios, a cantar hits em coro. Claro que isso sustenta uma indústria, de uma maneira ou de outra. Nem que seja a de PCs e celulares. O que acho que vai acontecer é que a internet vai virar uma imensa rádio sob demanda, com música grátis pro ouvinte, mas remunerada aos autores por anunciantes. Não acredito que o download pago pelo ouvinte dure muito tempo. Talvez nem sequer o download vá durar muito tempo, todo mundo vai simplesmente ouvir música com seus aparelhinhos, como uma rádio. Pra que ficar procurando torrents sinistros se tudo estiver ali em streaming nos grandes provedores?
PdO: Há a compensação de um maior volume de show com o maior acesso [através da internet] do público à arte dos músicos. Ou seja, diminui a venda de discos, mas tão ganhando mais por outro lado?
J: Não mesmo. Tem muito menos artistas fazendo o tipo de sucesso que gera uma boa carreira de shows. E temos que lembrar que existem muitos músicos que são só compositores, não “artistas de palco”. Pra esses não faz sentido essa história de “o show compensa…”
PdO: Acredita que o bem cultural como a música está caminhando para ser grátis ou do modo pague quanto quiser (como o In Rainbows)?
J: Acho que será grátis pro ouvinte na internet. E paga em produtos/embalagens especiais nas lojas.
PdO: A qualidade do MP3 é inferior à de um CD, você acha que o artista sai lesado nessa nova forma de ouvir música ou pra poucas pessoas isso faz diferença ao ouvir?
J: Uma fita k7 era muito pior que o vinil, muito mais que o MP3 é pior que o CD. Isso é irrelevante, as pessoas ouvem músicas em caixinhas de som minúsculas em seus PCs, ou num fone de ouvido que não tem sequer definição suficiente pra que um expert perceba essa diferença. Não tenho como controlar a qualidade do som do meu ouvinte. Um alto-falante ruim piora o som muito mais que o MP3. E, no fim, ouve-se música porque se gosta, não por causa da “alta qualidade de som”.
PdO: Com o barateamento no processo de produção de um álbum e com a facilidade de divulgar, entupiu a rede com milhares de bandas. Você acha que no processo de seleção do ouvinte vai sobreviver o que é bom, e as outras manifestações vão sumir?
J: Isso vai ser como sempre foi. Coisas boas e ruins permanecem, isso de que “o bom fica” é uma ilusão, mesmo porque as pessoas nunca estarão de acordo sobre o que é bom ou ruim. O que vejo é que como gravar ficou muito fácil, a internet está inundada de “projetos” e de bandas que na verdade não existem, só gravaram aquelas músicas, mas não fazem shows, não ensaiam, nada. Essas vão sumir, claro.
PdO: Como o Pato Fu se utiliza da internet?
J: De todas as formas possíveis. Acreditamos que temos uma posição privilegiada por já termos construído uma carreira antes desse fenômeno todo e, ao mesmo tempo, termos sido uma das primeiras a ter site, a disponibilizar MP3 e coisas assim. Sempre tivemos um contato direto com que nos escreve, sem intermediários, e isso fortaleceu nossa relação com os fãs, e acho que é o que acontece com muita gente nessas formas mais recentes – como o Twitter.
Já fizemos lançamento de disco em formato digital antes do físico, colocamos todo o conteúdo de um DVD livre pra download no site. Tirando o contato com fãs, é importante também o relacionamento com a imprensa e as colaborações à distância com outros artistas, impossíveis de se imaginar em outras épocas.
Entrevista de Damien para a Hot Press. Rice fala sobre a saída de Lisa Hannigan de sua banda.
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Rice fala sobre músicas, carreira, inspiração e crenças. Um dos mais ativos artista irlandês, dá umas das mais aberta entrevista de sua carreira. E abre o jogo sobre as influências de suas músicas.
Luli Radfahrer é um das pessoas que mais entende do processo de comunicação em rede [se isso é possível] no Brasil. Pioneiro no trabalho com internet no país, Luli é PhD em Comunicação Digital pela Escola de Comunicação e Arte, a ECA, da USP.
Em 1994, Radfahrer fundou uma das primeiras empresas de comunicação digital do país: a Hipermedia. De lá pra cá, ele atuou em Nova Iorque – como vice-presidente de conteúdo da StarMedia -; concluiu seu doutorado em Londres; e, em 2002, voltou ao Brasil e abriu sua consultoria, que atende clientes nacionais e de outras partes do mundo, como Canadá e EUA.
Luli ainda lançou três livros. Dois para sobre webdesigner: ‘Design/web/design‘ e ‘Design/web/design:2‘. E também escreveu uma crítica bem humorada sobre a disputa no ambiente corporativo: ‘A Arte da Guerra Para Quem Mexeu No Queijo Do Pai Rico‘. Ele ainda leciona aulas para os cursos de Comunicação da ECA há mais de 10 anos.
Certamente Luli Radfaher é uma das mentes brilhantes do país quando o assunto é pensar comunicação no ambiente digital. Nesses últimos anos, quando pipocaram especialistas em web-redessociais-whatever, é bom ouvir um cara que fala com consistência sobre inovação no mundo virtual.
Ouça abaixo a entrevista que Luli deu à Trip FM em março de 2009.[quicktime]http://p.audio.uol.com.br/trip/03_13_09_luliradfaher/luli_pod.mp3[/quicktime]
O ex-Beatle fala à revista Rolling Stones EUA sobre o verão de 1967. Confira a tradução da entrevista do bassman dos Beatles.
Link para o download de um dos melhores álbuns da carreira solo de Paul: Band On The Run
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Como foi o “verão do Amor” para você? Legal pra caramba. Tínhamos acabado de decidir que suspenderíamos as turnês porque já não estava mais valendo muito a pena. Parecia que não estávamos progredindo, o público continuava berrando, mas a gente se encheu daquilo. Tínhamos a idéia de fazer um disco que sairia em turnê por nós. Isso veio de uma história que tínhamos lido a respeito do Cadillac de Elvis fazendo turnê. Achamos que era uma idéia maravilhosa: ele não sai em turnê, só manda o Cadillac. Fantástico! Então, pensamos: “Vamos despachar um disco”. Passamos mais tempo em estúdio, e o resultado foi Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band (1967). Então, foi maravilhoso. Estávamos amadurecendo? Não sei. Olhando em retrospecto agora, éramos praticamente crianças, apesar de nos sentirmos muito adultos. Tanta coisa tinha acontecido com tanta rapidez, certamente desde a viagem dos Beatles para os Estados Unidos em 1964. Em essência, aqueles três anos foram a diferença entre “I Want to Hold Your Hand” e “Sgt. Pepper’s.” Os tempos estavam mudando, como sr. Dylan disse. Só estávamos seguindo nossos instintos, mas havia um grande arroubo de energia, as idéias vinham rápidas e consistentes. Todos os tipos de idéias novas – artísticas, políticas, musicais. Começamos a escrever coisas que eram diferentes porque nossas conversas, nossos pensamentos e nossos sentimentos eram diferentes. Estávamos passando muito mais tempo longe da estrada, com outros artistas, e isso nos permitiu investigar outras coisas. Tínhamos muitos amigos no mundo da música e no mundo da arte, e havia uma grande fertilização cruzada. Foi uma época ótima para experimentar coisas e tudo isso penetrou na nossa música e no nosso estilo de vida.
Eu me lembro do impacto de Sgt. Pepper’s como algo instantâneo e onipresente, tocando em toda casa noturna a que se ia, toda loja de roupa, toda loja de discos. Você fazia idéia de que teria esse tipo de efeito?
Foi ótimo, para falar a verdade. Como tínhamos parado de excursionar, a mídia começava a sentir que as coisas estavam calmas demais, o que criou um vácuo, de modo que puderam falar mal de nós. Diziam: “Ah, a fonte secou”. Mas nós sabíamos que não tinha secado. Sabíamos o que estávamos fazendo, e sabíamos que nossa fonte estava longe de secar. Na verdade, o oposto estava acontecendo – vivíamos uma enorme explosão de forças criativas. Nós pressentimos isso. Realmente não comentamos o assunto com muita gente. Tocávamos uma demo aqui, outra ali [para os amigos] e tal, mas o mundo de maneira geral não sabia de nada. Mas, como disse, o que alguns críticos comentavam era: “Ah, eles estão acabados”. Enquanto isso, estávamos lá trabalhando com alegria, como os Sete Anões – “Trabalho, trabalho, trabalho, trabalho, trabalho, trabalho, trabalho!” [risos]. Estávamos nos divertindo muito, obviamente, montando essa coisa. Daí, quando saiu, foi fantástico. Naquela época, costumávamos lançar [álbuns] na sexta-feira, e aquele fim de semana foi uma coisa. Eu me lembro de ter recebido telegramas que diziam coisas como: “Vida longa a Sgt. Pepper’s!”. Esse era o sentimento geral, e era maravilhoso. Naquele domingo, Jimi Hendrix tocaria no Saville Theatre no West End de Londres, e ele abriu o show com o tema de Sgt. Pepper’s. Cara, o disco estava mesmo em todo lugar! E é claro que nós só ficamos surfando naquela onda artística. Foi bem bacana exercer tanta influência assim. Como eu disse, era verão, e o sol brilhava, e lá estávamos todos nós, no maior astral [risos]! Eu me sinto muito privilegiado por ter vivido aquilo, em primeiro lugar e, em segundo, por ter sido o epicentro dos acontecimentos.
Deve ter sido uma sensação muito estranha – passar por mudanças enormes e, simultaneamente, gerar mudanças similares para milhões de outras pessoas.
Foi sobrenatural. Nós tínhamos nos acostumado com uma parte disso simplesmente por sermos os Beatles. Até “I Want to Hold Your Hand” tinha deixado as pessoas loucas. Mas agora a coisa passava para outro nível. Estávamos entrando no coração e na mente de todos.
Parecia muito que Sgt. Pepper’s fazia parte do sentimento daquela época em que, de algum modo, tudo iria se transformar, que nada jamais voltaria a ser como antes.
É engraçado, conheço muita gente que, depois dos anos 60, teve uma sensação de decepção que nunca passou. Eu pessoalmente achava que, ao passo que tudo estava mudando, não necessariamente significava que tudo mudaria. Nós tínhamos longas discussões a respeito de como um dia as pessoas da nossa geração se tornariam primeiros-ministros, e seria bem sobrenatural [para eles] o fato de terem sido afetados por esse período. Mas, ao mesmo tempo, éramos realistas, e pensávamos: “É, mas vão continuar sendo políticos”. Dava para saber que tudo que estava acontecendo no mundo mudaria a ordem das coisas em alguns aspectos, mas não em todos. E isso está provado pelos nossos líderes atuais. Eles continuam presos aos anos 40 ou algo assim.
Houve algum acontecimento específico que fez com que você se desse conta de que os anos 60 não cumpririam suas promessas?
Suponho que preciso considerar o rompimento dos Beatles como o momento mais sombrio. Os Beatles chegaram a um ponto em que implodiram – todos tinham dinheiro e fama e, de vez em quando, era inevitável que nos irritássemos uns com os outros. Eu tinha conduzido a dança um pouco em Sgt. Pepper’s. Para mim, o título e a idéia toda foi inspirada pela época e pela fertilização cruzada com os outros artistas. Queria que fosse algo do tipo: “Uau, cada um de nós tem sua lista de heróis [na capa] e vamos assumir estes alter egos. Seremos pessoas novas fazendo este disco, e podemos mais ou menos viver nestes corpos novos e fazer um álbum como se fôssemos outra banda”. Aquilo foi libertador. Mas, depois disso, não dava para sentir que era possível seguir em frente como aquela outra banda. Você inevitavelmente voltava à terra, fazia parte dos Beatles.
E foi aí que os problemas começaram…
Foi quando começamos a discutir assuntos comerciais, principalmente com o advento de Allen Klein – ou “um certo empresário norte-americano”, ou seja lá como somos obrigados a nos referir a ele. Deixemos para o departamento jurídico resolver. As conversas passaram a ser assim: “Ah, que merda, vamos ter mesmo que pensar sobre isso agora ou perderemos tudo por que trabalhamos”. E isso causou um racha tremendo.
Você acabou processando os outros Beatles. Foi o pior momento da minha vida, quando me informaram que não poderia me opor a esse tal de Klein, esse “suposto empresário norte-americano”. Como ele não era uma das partes de nenhum dos nossos acordos, precisei brigar contra os outros três caras. Foi uma situação com a qual me debati durante meses. Ou era: “Não, não brigue com esses caras e perca tudo para todo o sempre” ou “Brigue com esses caras e salve tudo”. Foi um dilema. No final, pensei: “Acho que eles não sabem o que estão fazendo, estão cometendo um erro pavoroso”. Então eu, de fato, briguei no Tribunal Superior e venci, por sorte. Isso criou um estigma terrível para mim, como sabia que criaria – não tinha entrado naquilo de bobo. Sabia qual seria o preço. Mas achei que, no fim, as pessoas descobririam que tinha razão. E foi gratificante quando todos os caras, no final, piscaram para mim e disseram: “Foi bom você ter feito aquilo”. Até Yoko [Ono] reconheceu isso. Mas foi uma coisa horrorosa de se viver. Foi quando o sonho se desfez para mim.
Houve um ponto em que você sentiu que, apesar da dissolução da banda, seria capaz de seguir em frente e continuar a se divertir?
Fazer o álbum McCartney (1970) foi bom para mim nesse aspecto, porque realmente retornei às raízes. Eu me senti bem, e isso é bom. Até hoje, as pessoas reparam naquele álbum. Com freqüência acontece com os artistas e os músicos – eu ia dizer especialmente, mas acho que está mais para igualmente – de o trabalho ser aquilo que faz você se compreender. A música é especialmente boa para isso, é uma boa terapia. Estava passando pela coisa terrível de perder a amizade daqueles meus camaradas da vida toda, e para quê? Bom, a mim parecia que o motivo era tentar salvar a vida deles. Aliás, não existiria uma [gravadora] Apple para estar em litígio com a Apple, não existiria problema algum com Steve Jobs – e não existe mesmo, falando nisso, já foi tudo resolvido -, mas não existiria uma Apple Records hoje. Tudo teria desaparecido; a coisa toda simplesmente não existiria. Não haveria nenhum show em Las Vegas, não haveria nenhuma destas coisas que agora estão aí tão gloriosas se não tivesse tomado aquela atitude. Mas foi uma decisão dura de verdade. Foi uma daquelas coisas que exigem terapia depois, e para mim, voltar à música foi essa terapia. E, é claro, com a enorme ajuda de Linda. Ela foi uma das grandes responsáveis por me fazer voltar à vida e seguir em frente. Ela era um bastão de força naquele momento. Isso e produzir música fizeram com que atravessasse aquele período.
Você, George e Ringo puderam desfrutar os ressurgimentos dos Beatles. John, é claro, morreu antes de boa parte disso acontecer, e agora George também se foi.
Esta é a pior parte de ficar adulto. Você perde amigos, é inevitável. Não é exatamente uma surpresa, mas é terrível. É muito triste. Conhecia John intimamente há tanto tempo. Sempre me admiro com o fato de eu ter sido o cara que se sentava com John para escrever todas aquelas coisas. Éramos só ele e eu em uma sala e isso era bem especial. Então, perdê-lo foi horrível. E foi especialmente triste porque tínhamos superado a desavença dos Beatles. Apesar de ele estar morando em Nova York, nós conversávamos com bastante regularidade. Simplesmente conversávamos sobre coisas cotidianas – sobre o filho dele, Sean, e sobre a vida em geral, sobre os pães que ele assava. Trocávamos receitas de pão, era ótimo. Então, simplesmente foi uma tragédia horrível ele ter sido arrancado daquele jeito. No caso de George, foi igualmente trágico. Eram meninos tão lindos, sabe? [Ele faz uma pausa, e sua voz treme] George era simplesmente um sujeito ótimo. Ele era um garotinho que eu conheci em Speke, Liverpool, só um garotinho que entrou no meu ônibus. Eu subi no ponto anterior ao dele, e ele entrou e nós começamos a conversar sobre guitarras e rock’n'roll. Depois, quando estávamos procurando um guitarrista, e eu mencionei o nome dele a John, George se juntou ao grupo. E daí passou a ser apenas o sábio George. Ele era um sujeito lindo que não agüentava gente burra. Era uma alma muito linda. Nem me deixe começar, cara. É um horror ter perdido aqueles caras. Mas a verdade terrível é ser adulto.
Você tem idéia do que continua a tocar as pessoas com os Beatles depois de todos esses anos?
Acho que, basicamente, é a magia. Os Beatles eram mágicos. Para mim, a vida é um campo de energia, um punhado de moléculas. E essas moléculas específicas se formaram para que aqueles quatro caras virassem os Beatles e fizessem todo aquele trabalho. Preciso pensar que foi algo metafísico. Uma coisa que deve ser considerada mágica. Estou sendo muito extravagante? Se você quiser ser prático, acho que as músicas eram muito bem estruturadas. Quando as canto atualmente em shows, penso: “Isso aí é bom, é sim. Que verso bom. Ah, entendi!”. É uma redescoberta. Você simplesmente lembra: “Ah, foi por isso que fiz assim”. Então, elas também têm uma força física, é trabalho bem-feito.
Você teve papel importantíssimo depois dos ataques de 11 de setembro, organizando o Concerto para a Cidade de Nova York e ajudando a reconstruir a confiança da cidade. Mas muita coisa aconteceu para complicar nossa noção do que houve naquele dia. Quando você pensa em 11 de setembro hoje, o que lhe vem à mente?
Bom, tenho minhas lembranças pessoais de estar no [aeroporto de Nova York] JFK e de ver a fumaça das torres gêmeas. O aeroporto fechou, nosso vôo foi cancelado, fomos para Long Island e ouvimos o noticiário e assistimos a TV. E depois pensei em fazer meu próprio concerto, mas tudo culminou no Concerto para Nova York, que foi ótimo, porque muita gente queria fazer alguma coisa. Foi ótimo fazer parte daquilo – ajudar os norte-americanos em particular, mas o mundo de maneira geral, a colocar seus sentimentos em algum lugar. A oportunidade perdida foi que as pessoas ficaram com um enorme sentimento de solidariedade em relação ao povo americano, e as ações políticas que se seguiram a 11 de setembro desperdiçaram a oportunidade. Foi como se alguém no playground tivesse apanhado, mas não sabia quem tinha batido, e por isso resolveu descontar na pessoa mais próxima – e isso se transformou no Iraque. A agenda política é a culpada.
Olhando para a frente, quais são as principais questões que se colocam agora?
Fazer algum avanço em direção à paz mundial. Seria ótimo se as pessoas com diferenças no mundo hoje percebessem que não existem diferenças – é um campo de energia! Precisamos da mesma velha coisa de sempre: paz e amor. Não sendo frívolo, mas esse continua sendo o grande objetivo. Bom, e vocês aí precisam de um novo líder [risos]! Quer dizer, isso ajudaria.
Nem brinque…
O ambiente é uma realidade. Algumas pessoas me dizem: “Há tantas causas, não sei quais apoiar”. Há as minas terrestres, os maus-tratos com animais, só para mencionar duas pelas quais me interesso. É como se considerassem este o problema: “Qual causa apoiar?”. Eu respondo: “Não entre em pânico, apenas escolha uma que o agrade e vá em frente. Todas estão conectadas”. Mas eu sou otimista, tem muita gente bacana por aí. No momento, temos montículos de terra. E tudo bem. Isso é bom. Mas precisamos que se transformem em uma montanha. Tem muita gente inteligente por aí, mas, infelizmente, também tem um monte de imbecis. Mas o meu otimismo me leva a torcer para que os inteligentes construam a montanha.
E qual você gostaria que fosse seu legado pessoal?
Sempre que me perguntavam como eu gostaria de ser lembrado, respondia: “Com um sorriso”. Mas gostaria que as pessoas entendessem o que eu fiz e pensassem que há uma enorme força naquilo. Gostaria que as pessoas pensassem que uma parte daquilo chega a ser demoníaco de tão forte. Isso me bastaria.