Gigolô das Músicas

Fone

Eu não vou continuar a mentir e nem protelar mais o meu pedido de desculpas. Sim, eu sou um gigolô das músicas. O pior de tudo isso, é que sou um daqueles dos mais desprezíveis. Fui anti-ético e sem moral alguma.

Tudo começou com a popularização do computador. Sempre fui a pessoa que ganhava um albúm e o ouvia por um bom tempo e por inteiro. Isso foi mudando aos poucos, principalmente, a partir do momento que fui hipnotizado pelo Napster. Há nove anos a internet não era lá essas coisas, começando por aquele modem de conexão via telefone de 56/kbps.

O Napster, pelo menos para mim, o percusor do compartilhamento de arquivos de áudio, me dava a possibilidade de “baixar” os arquivos de música que eu desejasse. A limitação da grande rede era muita na época, principalmente para nós brasileiros, então eu “puxava” para o meu computador algumas músicas isoladas de cada artista. Naquela época (isso pareceu outra era, talvez a cenozóica), era quase impossível pegar o disco inteiro para o meu computador, demoraria dias e resultaria num bom castigo por causa da conta telefônica.

Pegando uma música dali e outra daqui, acabou virando vício e assim me adaptei: me tornando neste gigolô que sou hoje. Até ontem, no meu ipod tinha duas mil canções: aproximadamente cento e cinquenta albuns. Apesar de tantas músicas eu só escustava trinta por cento delas. Era realmente um gigolô das músicas, só usava as que eu mais gostava e desprezava as outras. Por muitos anos abusei das minhas canções preferidas, fingindo que não existia outras tantas músicas esperando para serem ouvidas.

Cheguei ao fundo do poço no momento que criei o meu playlist. Sim, eu fui capaz de fazer isso. Não adianta mais eu fingir que nada fiz, é a hora da verdade. Nessa minha lista de musica eu selecionei as prediletas, as únicas; só elas ecoavam pelos fones de ouvido do mp3 player.

Estupidez minha. Deixei de conhecer durante muitos anos o lado B de mim mesmo, das própias músicas que escolhi. Não aprofundei no conhecimento daquilo que selecionei como música boa. Alguns podem dizer que não preciso ser radical assim, mas não dá pra negar, ainda sinto uma enorme vontade de voltar às músicas que olho de maneira especial.

Para resolver isso eu deletei minhas músicas e junto com elas as playlists, enchi o ipod dos diversos discos interessantes que tinham no meu computador. Outra atitude ortodoxa que tomei foi de só ouvir música no modo shuffle, misturando todas as músicas que estão neste tocador de música portátil.

Querendo ou não já está decidido. Daqui pra frente não vou mais ouvir umas poucas músicas que escolho, mas em favor da democracia, todas que estiverem no meu ipod vão ter espaços nos fones de ouvido – que passam boas horas por dia em meus ouvidos.

O último disco do Luis Melodia, Estação Melodia, é ótimo. Se possível, deixa ele no repeat, porque vale a pena ouvir várias vezes. Não diga nem sobre tortura que falei isso pra você, negarei até o fim. Afinal, não sou mais o “gigolô das músicas”.

d^^b Esse texto foi escrito ao som de Maria Rita, Damien Rice, Dave Matthews band, Tom Jobim, Mundo Livre S/A, Amy Winehouse, Paz e Mel e Dudu Nobre

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