entrevista | john ulhoa
Em entrevista para o blog Plug de Ouvido, John Ulhoa, guitarrista do Pato Fu, fala sobre a influência da internet na música: da produção à distribuição.
Os meios digitais têm mudado o relacionamento dos ouvintes com a música, seja por meio do download, streaming, aplicativos mobiles; tudo está de cabeça para baixo e está díficil de apontar, com certeza, como será o consumo de música na próxima década.
Para debater sobre essas transformações, nada melhor do que quem vive dos produtos da Indústria Cultural.
Pato Fu foi uma das primeiras bandas brasileiras a ter site, antes mesmo do lançamento do In Rainbows, a banda mineira fez o lançamento do álbum Toda Cura para Todo Mal primeiramente em seu site.
Acompanhe a entrevista!

Plug de Ouvido: Há um pouco mais de uma década as pessoas faziam as suas fitinhas de músicas [que passavam nas rádios] e compartilhava com os amigos. A tecnologia evoluiu e já não são mais fitinhas, mas pen drives ou a própria rede. Você acha que há diferença nessas formas de compartilhamento de música?
John: Acho que a maior diferença está no compartilhamento anônimo que é feito hoje em dia. Não é mais uma coisa entre amigos, que requeria algum trabalho artesanal de fazer aquela fitinha, e passá-la às mãos de alguém que você queria que conhecesse aquele som. Isso ainda existe mesmo com o MP3, mas na maior parte das vezes é uma coisa completamente diferente.
PdO: Qual é o ponto positivo do acesso à música pela internet?
J: É obviamente o acesso a tanta informação que estaria perdida sem isso. Tenho escutado coisas que achei que nunca mais ouviria. Pra ser sincero, o que eu mesmo mais gosto é de achar coisas antigas, muito mais que ouvir novidades. Novidades, eu sempre ouvi no ritmo que consigo absorver, e continuo fazendo assim. Mas as raridades que tenho encontrado… essas sim valem a pena.
PdO: Qual é o ponto negativo?
J: Acho que o aspecto negativo é que temos cada vez mais artistas tendo 15 minutos de fama e cada vez menos tendo carreiras sustentáveis. Estou vendo todo mundo muito animadinho com essa coisa toda, mas quem consegue viver decentemente com música ainda acaba tendo que passar pelo mainstream de radio e tevê – e o acesso a esse está cada vez mais reduzido. Ter uma banda independente está mais divertido, todo mundo nas comunidades, no Twitter, etc, mas está muito pior pra trabalhar “de verdade”.
É que o esquema das gravadoras – com todos seus defeitos – ainda não foi substituído por nada que se compare à capacidade que elas tinham de lançar e sustentar carreiras. Isso deve acontecer eventualmente, mas ainda não chegamos lá. Artistas muito bons que conheço que obviamente interessariam a gravadoras há alguns anos gravam sozinhos discos muito bem produzidos, com tudo “em cima”, mas tem que se contentar em ficar contando views no You Tube ou My Space. Divertido, mas temos que superar esses estágios.
PdO: Você acredita que com download isolados de faixas está havendo um movimento de volta ao antigo formado de compacto, substituindo o ´LP´ – os álbuns com mais de 12 músicas?
J: Pode ser um jeito de divulgar mais um single, mas não é exatamente como um compacto. Acaba sendo uma extensão do single da rádio. O que há mesmo é um abandono da posse de um disco, seja LP, compacto ou CD. O engraçado é que todo músico que conheço gosta da idéia de lançar “cds com 12 faixas”. Músicas gravadas na mesma época, com um certo conceito amarrado: com capa, foto, etc… Isso vai sendo substituído por um arquivo dentro dum site, mas porque tem que ser, não porque os artistas querem.
PdO: A indústria cultural, que faz mediação do artista com o público, tende a acabar? Já que há viabilidade de ter acesso ao público de forma mais direta e há espaços de divulgação mais baratos e simples?
J: Nada disso acaba com a indústria cultural. As pessoas continuam a querer se aglomerar em estádios, a cantar hits em coro. Claro que isso sustenta uma indústria, de uma maneira ou de outra. Nem que seja a de PCs e celulares. O que acho que vai acontecer é que a internet vai virar uma imensa rádio sob demanda, com música grátis pro ouvinte, mas remunerada aos autores por anunciantes. Não acredito que o download pago pelo ouvinte dure muito tempo. Talvez nem sequer o download vá durar muito tempo, todo mundo vai simplesmente ouvir música com seus aparelhinhos, como uma rádio. Pra que ficar procurando torrents sinistros se tudo estiver ali em streaming nos grandes provedores?
PdO: Há a compensação de um maior volume de show com o maior acesso [através da internet] do público à arte dos músicos. Ou seja, diminui a venda de discos, mas tão ganhando mais por outro lado?
J: Não mesmo. Tem muito menos artistas fazendo o tipo de sucesso que gera uma boa carreira de shows. E temos que lembrar que existem muitos músicos que são só compositores, não “artistas de palco”. Pra esses não faz sentido essa história de “o show compensa…”
PdO: Acredita que o bem cultural como a música está caminhando para ser grátis ou do modo pague quanto quiser (como o In Rainbows)?
J: Acho que será grátis pro ouvinte na internet. E paga em produtos/embalagens especiais nas lojas.
PdO: A qualidade do MP3 é inferior à de um CD, você acha que o artista sai lesado nessa nova forma de ouvir música ou pra poucas pessoas isso faz diferença ao ouvir?
J: Uma fita k7 era muito pior que o vinil, muito mais que o MP3 é pior que o CD. Isso é irrelevante, as pessoas ouvem músicas em caixinhas de som minúsculas em seus PCs, ou num fone de ouvido que não tem sequer definição suficiente pra que um expert perceba essa diferença. Não tenho como controlar a qualidade do som do meu ouvinte. Um alto-falante ruim piora o som muito mais que o MP3. E, no fim, ouve-se música porque se gosta, não por causa da “alta qualidade de som”.
PdO: Com o barateamento no processo de produção de um álbum e com a facilidade de divulgar, entupiu a rede com milhares de bandas. Você acha que no processo de seleção do ouvinte vai sobreviver o que é bom, e as outras manifestações vão sumir?
J: Isso vai ser como sempre foi. Coisas boas e ruins permanecem, isso de que “o bom fica” é uma ilusão, mesmo porque as pessoas nunca estarão de acordo sobre o que é bom ou ruim. O que vejo é que como gravar ficou muito fácil, a internet está inundada de “projetos” e de bandas que na verdade não existem, só gravaram aquelas músicas, mas não fazem shows, não ensaiam, nada. Essas vão sumir, claro.
PdO: Como o Pato Fu se utiliza da internet?
J: De todas as formas possíveis. Acreditamos que temos uma posição privilegiada por já termos construído uma carreira antes desse fenômeno todo e, ao mesmo tempo, termos sido uma das primeiras a ter site, a disponibilizar MP3 e coisas assim. Sempre tivemos um contato direto com que nos escreve, sem intermediários, e isso fortaleceu nossa relação com os fãs, e acho que é o que acontece com muita gente nessas formas mais recentes – como o Twitter.
Já fizemos lançamento de disco em formato digital antes do físico, colocamos todo o conteúdo de um DVD livre pra download no site. Tirando o contato com fãs, é importante também o relacionamento com a imprensa e as colaborações à distância com outros artistas, impossíveis de se imaginar em outras épocas.
















